sábado, 20 de dezembro de 2008

Pela estrada

Eu estava em um daqueles momentos em que é mais saudável não tentar pensar demais. Como quando se acaba de acordar, sem conseguir reconhecer o próprio quarto. Ou sem conseguir saber se é mesmo o próprio quarto ou um quartinho de hotel em qualquer outro lugar do mundo. Aquela confusão mental confortável, as coisas começam a flutuar, o ar fica rarefeito e tudo parece meio borrado. Assim como na estrada, quando todas as placas pareciam borradas na madrugada, em meio ao meu sono induzido. Então eu só cheguei aqui, pisando cautelosamente nesse solo desconhecido e não sei dizer se consegui me instalar por conta própria ou se fui gentilmente carregada. O fato é que agora estou aqui, seja lá onde for. Não é culpa minha, na verdade. Do jeito que eu sou você não me veria usando drogas nem em um milhão de anos. O caso é que eu não posso entrar em um carro que já fico tonta e se permanecer nele em movimento por mais de 20 minutos, a possibilidade de devolver qualquer coisa que tenha comido nas últimas horas é grande. Então sou obrigada a tomar uns remedinhos que fazem dormir. É como num sonho, no qual não se pode descansar e nem acordar por vontade própria. Sons externos, vindos da realidade misturam-se com as sinfonias do lado fantasioso, assim como as poucas imagens captadas da dimensão tangível, que se mesclam com as cores improváveis do meu torpor consciente.
                Faz algum tempo que não vejo motivos para lutar contra isso. Foi uma das coisas que me mostrou que, às vezes, a viagem pode ser melhor que o destino. Mesmo que nada daquilo seja necessariamente real. É só uma questão de ponto de vista, na verdade. Não vejo o ar ou a gravidade, mas eles são reais. Vejo muito nos meus sonhos, mas de certa forma, eles nem poderiam ser cogitados como reais. Não é como se eu me importasse com isso.
                O que importa é que aqui estou eu, em uma cidade provavelmente desconhecida, que por acaso não sei qual é. É engraçado dizer que tudo correu como o planejado quando não há planos, mas não há nada possivelmente mais satisfatório que isso. Outra coisa também satisfatória é poder livrar-se dos nomes e dos conceitos previamente formados sobre os lugares. Tem jeito melhor de conhecer um lugar do que andar por ele sem direção ou obrigação? Um cartão postal, cenas em alguns filmes e seriados, documentários, fotos, relatos de amigos e conhecidos. Coisas que podem te dar várias impressões sobre um lugar, mas nada vai te dar a noção exata desse lugar, a noção que você deve ter. No momento em que seus pés estiverem lá, assim como os meus estão aqui, (mesmo que eu ainda não saiba que “aqui” é esse) só os seus olhos, ouvidos e tudo mais que você for capaz de captar te darão a entender e definir onde você está e que lembranças você levará daí. Quer dizer, as pessoas e coisas que você verá, conhecerá e nas quais se demorará definitivamente não estão nos guiais turísticos. Não teria como, pois não há como fazer com que um grande número de pessoas repare nas mesmas coisas (ainda bem), com exceção de grandes proezas da natureza e coisas que foram feitas especialmente para serem fotografadas, apontadas e celebradas. E as coisas que realmente importam só são daquele jeito em um momento. Ou seja, agora enquanto dou os meus passos decididos rumo à indecisão de que esquina virar, só essas pessoas passam por aqui. Elas podem ter os mesmos horários e trajetos, mas quando mais elas estarão exatamente no mesmo lugar que estão agora, no mesmo horário? Nada se repete, nunca. Essas coisas são únicas. Geralmente inúteis, mas isso tudo só serve para sublinhar a minha teoria de que essa cidade não precisa ser o que ela é, o que dizem que ela deve ser, ou o que seus cartões postais mostram. E sim o que os meus olhos verem, o que eu sentir aqui e especialmente o que eu precisar dela nesse momento. Eu posso te contar em todos os detalhes do que eu fiz, onde eu estive e o que eu senti. Mas é impossível que isso aconteça pra você ou pra qualquer outra pessoa. Do jeito que eu senti, ela é a minha cidade. E tão impossível, que nem eu mesma poderia vê-la outra vez, nem que eu quisesse e planejasse tudo (já disse que planejar é inútil?). Logo, não pode ser que esse lugar leve seu nome original e eu nem me esforço pra ficar sabendo qual é. Nas minhas anotações, ele leva o nome mais apropriado ao que me proporcionou. E perdido no mapa, não há caminho de volta, pois ninguém poderia me dizer onde fica um lugar para o qual eu inventei um novo nome e cujas referências que eu poderia dar não levam a um possível reconhecimento.

2 comentários:

Julee disse...

É exatamente singular chegar num local do qual nada se sabe pela bouca de outros, descobrir tudo à sua própria maneira.. [to curiosa]

caio moreira disse...

"ninguém poderia me dizer onde fica um lugar para o qual eu inventei um novo nome e cujas referências que eu poderia dar não levam a um possível reconhecimento."

linda frase!