sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

SOAN


SENTIDO é o que dá SENTIDO a tudo. Como seria se os sentidos mudassem e dessem outros sentidos?
Cinco. Cinco foram os caminhos que percorri a chegar em Soan, a famosa cidade dos anões, onde acontece coisas um pouco tanto estranhas, dizem que em Soan os sentidos mudam, você não vê lá, você cheira, você segue o cheiro... o mais engraçado é o paladar do som, eita cidade engraçada. Muzielli é o poeta da cidade Soanense, ele escreveu um poema assim:
Senti o cheiro do gosto hoje pela manhã,
meu paladar aguçou,
mas o gosto era de sons,
som de Noel,
que me faz sentir água na boca.

Muzielli, o filho do meio de uma das famílias tradicionais de Soan, brincava com as palavras desde criança, tinha uma facilidade invejável, por isso era considerado um poeta da Elite, porque poeta da Elite? porque ele tinha um contrato que publicaria suas poesias só para as pessoas “nobres” assim como eram chamados, mas ele não gostava disso ele gostava que todos lessem seus versos, então pensou: “Irei publicar sim, para todos, ninguém precisa ficar sabendo quem sou eu, criou um pseudônimo”....
- Continua...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Brasileiro do Mundo

Brasileiro do mundo
catarina do paraná
manezinho do porto
vivo como quem parte
como quem sabe
que está só de passagem.
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domingo, 11 de janeiro de 2009

HAI-CAIPIRANDO


Tida e dita
Como capital
É Curita

Aqui,
Caipira

Tida e dita
Como capital
É Floripa

Aqui,
Caipira

Tida e dita
Como capital
É Babilônia
Qualquer colônia
Urbana

Tida e dita
Como uma pêra
É a terra

Espere a esperança
E perca

Quem cede
Na cidade
Desce

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Em busca da possibilidade...


‘E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana’. (Drummond)

Cidades Impossíveis Cidades. Impossível não carregar junto conosco uma herança do nosso berço esplêndido. E o meu berço esplêndido é Caçador. Isso mesmo, Caçador. Já estou acostumada com as reações. Quanto mais longe vou, mais estranha fica a face de quem me pergunta de onde eu sou. O engraçado é que não foi Caçador quem me acolheu no momento em que comecei a dar os meus primeiros passos sozinha. Os passos da independência, do início da construção do meu futuro. Foi em uma cidade gêmea, a quase cem quilômetros dali que ‘fui encontrar o mundo’, como bem disse o pai de Sérgio, no livro O Ateneu. E com muita coragem para a luta eu vivi nesta cidade, Porto-União-da-Vitória os mais inesquecíveis anos da minha vida. Amigos, experiências, dificuldades, mancadas, alegrias... Tudo eu vivi lá. E trago comigo as maravilhosas lembranças, bem como as verdadeiras amizades. E Caçador ficou distante. Tão distante de mim que até minha carteira de identidade, com segunda via expedida em Porto União, já não me fazia lembrar dela. Foram quatro anos. E, de repente, Porto-União-da-Vitória ficou pequena para mim. E eu já não cabia em Caçador. Aventurei-me por Calmon, com o sonho de alfabetizar em Português e Inglês doces criancinhas que moravam em uma cidade tão pequenina, mas tão hospitaleira. Ficava imaginando eles chegando em casa falando: Hi dad, hi mom, I want a coke and a hot-dog. O sonho foi interrompido. Ainda bem, senão estariam obesos. Calmon ficou minúsculo em menos de dois meses. A capital me chamava. A Ilha gritava por mim. As cidades são impossíveis. Os sonhos não. E menor que meu sonho não posso ser, já dizia Lindolf Bell, um poeta amante de sua cidade. Fui na sexta, segunda estava trabalhando. E esta cidade, maravilhosa por si só, me adoeceu, me fez sentir náuseas, febres, dores musculares. Era muito impossível para mim. Lá estava eu: conhecia um par de pessoas, tinha um trabalho de 20 horas, onde, em um dia trabalhava oito horas/aula e pegava dez ônibus. Fiquei doente, a doença da cidade grande: Yes, I’m a workaholic! Sim, isso mesmo. Sou uma workaholic em tratamento. Em dois anos, sempre com carga horária lotada, inclusive nos finais de semana, o trabalho me viciou. Tanto que meu tempo livre foi para estudar para concursos públicos. Sim, estou assumindo o terceiro. Sim, não quis morar em Itapema, no sossego da doce Itapema. Água-de-coco, beira do mar, sossego. Cruzes!! Mas como disse, estou em tratamento. Consultei algumas pessoas confiáveis, uma perguntinha aqui, outra dúvida acolá e, em um momento de depressão profunda, me tranquei em um quarto estranho e pari um projeto para o Mestrado em três dias. Deu certo. É o início do meu tratamento. E o início da realização de mais um objetivo, ainda que seja o trabalho que esteja me motivando. As cidades nos causam traumas e realizações. Somos afetados por elas em nosso dia-a-dia. E não nos damos conta disso. De Caçador eu trago em mim esse sotaque arrastado, quadrado. Esse erre puxado que às vezes escapa entre os manés. Como é difícil pronunciar barbershop! Barrrberrrrshop! É isso mesmo! Sou de Caçadorrrr! E lá a gente fala assim. Em Nova Yorrrk talvez não. E em Chicago?? Enfim, hoje a dor me toma quando volto a Caçador de férias. É um cenário morto, onde minha família ainda vive. E continuam achando o melhor lugar do mundo. Para mim é pequena. E fria. E triste. E como eu fui feliz lá! E Raul Pompéia é genial quando nos diz no ainda mesmo romance citado:

“Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.

Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo - a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.”

A paisagem é a mesma em cada Cidade Impossível. Nossos sonhos é que mudam. E os dias melhores sempre ficarão para trás, não importa em qual lado você esteja na estrada da vida. Depois de tanta estrada, eu ainda não aprendi a criar raízes. Uma cidade é realmente impossível para mim. Preciso de várias. Caçador, Porto União, União da Vitória, Calmon, Itapema, Floripa, São José e agora Biguaçu chamando por mim. E em cada cidade impossível, uma história possível, com personagens e traumas novos.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Macondo

Em Macondo, eu e Amaranta bordamos na varanda aguardando notícias do coronel Aureliano Buendía. Rebecca fica a costurar vestidos. Sinto o cheiro dos caramelos de Úrsula que vêm da cozinha.
Às cinco da tarde todos os relógios cucos tocam uma melodia mecânica.
José Arcadio Buendía desenhou essa cidade de tal maneira que nenhuma casa toma mais ou menos sol do que outra. Pobrezinho, enlouquecido, hoje fica atado ao castanheiro do quintal.
Ah, Aureliano, por que tantas guerras? Volte meu querido, deixo seu café amargo sempre pronto a lhe esperar. Não me importo com as mulheres que passam por sua rede de campanha. Sei que voltará à Macondo para fazer peixinhos de ouro, derretê-los e repetir tudo infinitamente. Como a mortalha que Amaranta tece. Desmancha-a, pensando que com isso adiará a morte.
Ficamos na varanda. Macondo é uma varanda numa tarde fresca, imprescindível que paire o silêncio.
Onde moro? Ah, andei pelo mundo. Não moro nesta cidade provinciana e de mentalidade medíocre. Moro em Macondo. O que faço? Apenas esperar por meu Aureliano.

domingo, 28 de dezembro de 2008

(281208)

Um mundo, nem tão paralelo assim.


-Dessa noite não passa!
A formiga desvairada corre contra o tempo.
Se pinta.
Se enrosca no seu vestidinho branco.
Enfeita o vaso com retalhos de flores coloridas.
Na vitrola, o som de uma balada conhecida.
Acompanhada de doces senta a janela na espera... a espera... desespera.
A lua gorducha inflama-se de vergonha por ela.

No parapeito estreito do cortiço a pequena formiga resmunga ao vento... que a colônia cresceu demais... que as ruas mudaram para um tom de verde desconhecido, talvez concreto. Boas almas não gostam de concreto. Lá longe, absorvida pelas lembranças, suspira com orgulho por conseguir conquistar a amizade do gato, do rato, da coruja “zolhuda”. Solta um riso abobalhado, pois lembra que não andou na fila nos últimos tempos.
E numa reza quase inaudível, agradece aos pequenos grilos celestiais, por seu formigueiro não ter sido destruído por nenhum ser egoísta.

E quando o sono desnudo, quase a carrega para outros mundos percebe as luzes...
- As luzes!! Que alegria!!

Celebrando a chegada de um novo ano!


Nane Pereira

sábado, 20 de dezembro de 2008

Pela estrada

Eu estava em um daqueles momentos em que é mais saudável não tentar pensar demais. Como quando se acaba de acordar, sem conseguir reconhecer o próprio quarto. Ou sem conseguir saber se é mesmo o próprio quarto ou um quartinho de hotel em qualquer outro lugar do mundo. Aquela confusão mental confortável, as coisas começam a flutuar, o ar fica rarefeito e tudo parece meio borrado. Assim como na estrada, quando todas as placas pareciam borradas na madrugada, em meio ao meu sono induzido. Então eu só cheguei aqui, pisando cautelosamente nesse solo desconhecido e não sei dizer se consegui me instalar por conta própria ou se fui gentilmente carregada. O fato é que agora estou aqui, seja lá onde for. Não é culpa minha, na verdade. Do jeito que eu sou você não me veria usando drogas nem em um milhão de anos. O caso é que eu não posso entrar em um carro que já fico tonta e se permanecer nele em movimento por mais de 20 minutos, a possibilidade de devolver qualquer coisa que tenha comido nas últimas horas é grande. Então sou obrigada a tomar uns remedinhos que fazem dormir. É como num sonho, no qual não se pode descansar e nem acordar por vontade própria. Sons externos, vindos da realidade misturam-se com as sinfonias do lado fantasioso, assim como as poucas imagens captadas da dimensão tangível, que se mesclam com as cores improváveis do meu torpor consciente.
                Faz algum tempo que não vejo motivos para lutar contra isso. Foi uma das coisas que me mostrou que, às vezes, a viagem pode ser melhor que o destino. Mesmo que nada daquilo seja necessariamente real. É só uma questão de ponto de vista, na verdade. Não vejo o ar ou a gravidade, mas eles são reais. Vejo muito nos meus sonhos, mas de certa forma, eles nem poderiam ser cogitados como reais. Não é como se eu me importasse com isso.
                O que importa é que aqui estou eu, em uma cidade provavelmente desconhecida, que por acaso não sei qual é. É engraçado dizer que tudo correu como o planejado quando não há planos, mas não há nada possivelmente mais satisfatório que isso. Outra coisa também satisfatória é poder livrar-se dos nomes e dos conceitos previamente formados sobre os lugares. Tem jeito melhor de conhecer um lugar do que andar por ele sem direção ou obrigação? Um cartão postal, cenas em alguns filmes e seriados, documentários, fotos, relatos de amigos e conhecidos. Coisas que podem te dar várias impressões sobre um lugar, mas nada vai te dar a noção exata desse lugar, a noção que você deve ter. No momento em que seus pés estiverem lá, assim como os meus estão aqui, (mesmo que eu ainda não saiba que “aqui” é esse) só os seus olhos, ouvidos e tudo mais que você for capaz de captar te darão a entender e definir onde você está e que lembranças você levará daí. Quer dizer, as pessoas e coisas que você verá, conhecerá e nas quais se demorará definitivamente não estão nos guiais turísticos. Não teria como, pois não há como fazer com que um grande número de pessoas repare nas mesmas coisas (ainda bem), com exceção de grandes proezas da natureza e coisas que foram feitas especialmente para serem fotografadas, apontadas e celebradas. E as coisas que realmente importam só são daquele jeito em um momento. Ou seja, agora enquanto dou os meus passos decididos rumo à indecisão de que esquina virar, só essas pessoas passam por aqui. Elas podem ter os mesmos horários e trajetos, mas quando mais elas estarão exatamente no mesmo lugar que estão agora, no mesmo horário? Nada se repete, nunca. Essas coisas são únicas. Geralmente inúteis, mas isso tudo só serve para sublinhar a minha teoria de que essa cidade não precisa ser o que ela é, o que dizem que ela deve ser, ou o que seus cartões postais mostram. E sim o que os meus olhos verem, o que eu sentir aqui e especialmente o que eu precisar dela nesse momento. Eu posso te contar em todos os detalhes do que eu fiz, onde eu estive e o que eu senti. Mas é impossível que isso aconteça pra você ou pra qualquer outra pessoa. Do jeito que eu senti, ela é a minha cidade. E tão impossível, que nem eu mesma poderia vê-la outra vez, nem que eu quisesse e planejasse tudo (já disse que planejar é inútil?). Logo, não pode ser que esse lugar leve seu nome original e eu nem me esforço pra ficar sabendo qual é. Nas minhas anotações, ele leva o nome mais apropriado ao que me proporcionou. E perdido no mapa, não há caminho de volta, pois ninguém poderia me dizer onde fica um lugar para o qual eu inventei um novo nome e cujas referências que eu poderia dar não levam a um possível reconhecimento.